Monteiro Lobato e seus colaboradores mirins ( do Prosa online)

Monteiro Lobato e seus colaboradores mirins

"Eu fiquei ainda mais contente de ver que tenho uma leitorazinha de 12 anos que vale muito mais que os leitores de 30 ou 40”, escreveu Monteiro Lobato (ao lado, em foto de arquivo cedido pela Cia. da Memória) para Maria Luiza Pereira Lima, em 1936. O criador do Sítio do Picapau Amarelo, cujos 127 anos de nascimento são comemorados hoje — data transformada em Dia Nacional do Livro Infantil — não foi só pioneiro na literatura para crianças no país, mas também um escritor de cartas compulsivo, especialmente para seus leitores mirins, acordando de madrugada para botar a correspondência em dia. O vasto material virou objeto de pesquisa e, nos últimos meses, duas teses de doutorado sobre o assunto foram concluídas.

O trabalho “Pequenos poemas em prosa”, de Patricia Tavares Raffaini, defendido em agosto do ano passado no programa de pós-graduação em História Social da USP, detalha o que já se sabia: o escritor criava e modificava suas obras pelo que lhe diziam seus leitores. Lobato não só aproveitava as ideias das crianças, como as incentivava a escrever histórias com ele. A tese “Entre leitores e leituras: um estudo de cartas de leitores”, de Raquel Afonso, do departamento de Teoria e História Literária da Unicamp, que será defendida em maio, investe na questão comportamental, mostrando que as crianças daquele tempo escreviam para o autor mais livremente, pois a leitura, à época, ainda não era uma exigência escolar.

Algumas dessas conclusões lançam pistas para compreender por que, quase 90 anos depois do lançamento de seu primeiro livro infantil, “A menina do narizinho arrebitado” (1920), Lobato ainda tem fôlego junto a esse público. A Editora Globo, que até o fim deste ano termina de relançar a obra completa do autor, comemora 1,32 milhão de livros vendidos desde 2007. Internet, TV e outras distrações dos tempos modernos parecem não ter sido suficientes para tirar as crianças de dentro do Sítio.

Participar das aventuras do Sítio do Picapau Amarelo era o pedido da maior parte das crianças que, nos anos 30 e 40, trocavam cartas com Monteiro Lobato. Desejos assim eram atendidos pelo escritor. Tanto que meninos e meninas “de carne e osso” apareceram nas histórias a partir de “Caçadas de Pedrinho” (1933). Como explica Patricia Tavares Raffaini, que em sua tese analisou aproximadamente 320 cartas escritas por leitores da época — pertencentes ao acervo do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), da USP — o autor escrevia e modificava suas obras em sintonia com a recepção de seu público.

— A colaboração mais efetiva talvez tenha sido a da menina Maria de Lourdes, apelidada de Rãzinha. Ela faz inúmeras sugestões em suas cartas, utilizadas em “A reforma da natureza”, de 1941. Lobato coloca a leitora como protagonista da reforma, juntamente com a Emília — explica Patrícia.

Outra leitora, Leda Maciel, em carta enviada ao autor, perguntou: “Como é que na sua cabeça cabe tanta coisa boa e engraçada?”. Naquele tempo, afirma a pesquisadora Raquel Afonso, da Unicamp, as crianças escreviam com maior liberdade. Em sua tese “Entre leitores e leituras: um estudo de cartas de leitores”, ela faz uma análise não só das cartas a Lobato, mas também daquelas escritas para Pedro Bandeira e Ana Maria Machado, ao longo das últimas décadas.

— Entre as mudanças que podemos observar pela comparação dos acervos, há a presença cada vez mais marcante da escola na mediação entre livros e leitores. Nas décadas de 30 e 40, ela era apenas um dos mediadores da leitura, sendo que o núcleo familiar parecia ser o mais importante incentivador. Já entre as cartas dos leitores de Ana Maria Machado, nota-se justamente o inverso: a grande maioria vem de escolas e parece escrita exclusivamente em cumprimento a uma tarefa — diz.

A espontaneidade com a qual escreviam as crianças de 70 anos atrás (ao lado, carta de Alariquinho, um dos missivistas mais assíduos) certamente era incentivada pelo próprio Lobato, que levava a atmosfera do Sítio para as suas cartas. Em uma delas, de 1936, para Maria Luiza Pereira Lima, ele escreve: “Li sua cartinha lá no Sítio do Picapau e a Emília disse: ‘Ela que venha aqui que eu tiro a prosa dela’ — e como você disse que sabia alemão, a sapeca da Emília pôs-se a aprender alemão para não fazer feio quando você vier”.

— Tive contato com poucas cartas de Monteiro Lobato para seus leitores, mas essa correspondência era escrita em uma linguagem próxima àquela utilizada em sua literatura. Lobato utilizava os personagens para dialogar com seus leitores. É interessante porque as crianças mandam recados aos moradores do Sítio. Há, no acervo do IEB, cartas dirigidas à Dona Benta e à Emília — conta Raquel.

As duas pesquisadoras concordam que o humor é um dos assuntos mais comentados nas missivas.

— Pelas cartas, é possível perceber um pouco do universo infantil da época: as preocupações com a vida escolar, a política, a Segunda Guerra Mundial e até mesmo com a prisão de Lobato. Mas elas quase sempre comentam situações divertidas e engraçadas dos livros. O humor e a criatividade presentes na narrativa parecem ser o que a criança mais valorizava — diz Patrícia.

Raquel ressalta ainda que era comum que os leitores lobatianos tivessem, em sua maioria, simpatia pela Emília:

— Eles adoravam as “asneiras” e “traquinagens” da boneca, seu humor e sua rebeldia.

A preferência pelo humor e por Emília são pontos em comum entre os pequenos leitores do século passado e os que ain$hoje leem a obra de Lobato. Vladimir Sacchetta, autor da biografia “Furacão na Botocúndia” (Senac São Paulo), ao lado de Carmen Lúcia de Azevedo e Márcia Camargos, afirma que a personagem nunca deixará de ser central para as crianças.

— É uma boneca de pano falante, contestadora, malcriada... A Emília jamais saiu do imaginário da garotada, apesar das gerações que ficaram privadas dos livros, pela falta de novas edições — avalia Sacchetta.

Hoje, no entanto, as aventuras do Sítio do Picapau Amarelo esbarram em concorrentes que não existiam há 90 anos, como a internet, a televisão e sua infinidade de canais, os jogos eletrônicos. Com um agravante: na época em que Monteiro Lobato trocava cartas com seus leitores, palavras como maçada, catatau e lampeira, presentes em seus livros, não precisavam ser explicadas, pois faziam parte não só do vocabulário dele, mas das crianças também.

Por causa delas, um glossário foi cogitado para as novas edições dos livros infantis do autor, que vêm sendo lançadas desde 2007 pela Globo — escolhida pelos herdeiros de Lobato depois de dez anos de batalhas judiciais com a Brasiliense, até então responsável pela obra.

— Optamos por não mudar nada, até porque o próprio autor tinha um enorme respeito pelas crianças e por sua inteligência. Entendemos que elas podem ir ao dicionário para resolver essa questão — explica Márcia Camargos, que foi consultora, com Sacchetta, na reedição dos livros.

Márcia complementa, dizendo que cabe aos professores estimular essa procura nos dicionários. Os docentes não são mencionados por ela à toa. É principalmente na escola que as crianças começam a ler Lobato, de acordo com Lúcia Machado, diretora da unidade de negócios $da Editora Globo:

— As publicações são adotadas para crianças com mais de 8 anos. Percebo que, mesmo nesse tempo todo em que os livros de Lobato não ganharam novas edições, muitos colégios deram um jeito de continuar trabalhando com a obra. Hoje, a procura das escolas é incrível.

A própria editora não tem números fechados de quantos colégios adotam os livros do autor, já que muitos o fazem por conta própria. Mas por uma pequena amostra de escolas particulares da cidade de São Paulo, que fazem a adoção por meio da editora, é possível ter uma ideia do ritmo de crescimento: no início de 2008, eram 29. Hoje, são pouco mais de 200, quase sete vezes mais.

Sacchetta afirma ainda que a televisão — a série é reprisada atualmente pelo Canal Futura — contribui para manter o interesse pelos livros de Lobato:
— A série do Sítio do Picapau na TV é um elemento que alavanca o interesse das crianças. Sua última versão reduzia os conteúdos lobatianos e exagerava nos efeitos especiais, talvez para tentar dialogar com esse novo público, que é diferente. Ainda assim estimula a leitura.

Para os que pensam que o escritor — que morreu em 1948, aos 66 anos, deixando como legado não apenas sua obra mas uma longa batalha pela leitura e pelo progresso do país — teria medo de que as novas tecnologias afastassem as crianças dos livros, Sacchetta lembra:

— Ele seria o maior incentivador dessas novidades. Lobato era um empresário, um homem de visão. Passaria o dia todo trocando e-mails com as crianças, a partir de um computador de última geração. Não tenho dúvidas de que estaria mais do que feliz.

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